VIDA REAL


Ele não tinha nome, não tinha casa, não tinha nada, 30 e poucos anos aparentemente... Roupas sujas, pés descalços, mãos vazias... Mas ele tinha um irmão, foi o que me disse, repetiu várias vezes entre uma frase e outra, acho que era tudo o que ele tinha: um irmão que precisava de comida e que o esperava numa rodoviária inativa que, por ironia do destino fica bem ao lado do bosque do pau-brasil, lugar perfeito para um brasileiro anônimo se abrigar do sol, da chuva e do frio. Rosto sério, triste... Sua voz mais parecia um lamento.

Ele estava ali com uma história pra contar, uma história recente, que ele precisava contar e eu senti que precisava ouvir. Ali, parados na calçada da minha casa aquele homem estranho, que poderia ser um assaltante ou algo parecido, me passou confiança, era apenas mais uma vítima da decadência social que bate à nossa porta e que nem sempre queremos encarar, por insegurança, medo, pois nunca sabemos em que momento também seremos vítimas das ações violentas de outras vítimas.

Contou que foi até um boteco “tomar uma”, enquanto isso deixou num canto afastado, um saco no qual estavam todos os seus pertences: algumas roupas velhas, um par de sandálias que acabara de ganhar de alguém, alguns alimentos inclusive o leite do seu irmão e um radinho velho. Enquanto isso foi passando o carro da coleta de lixo, o lixeiro vendo aquele saco sujo deu a ele o destino que lhe cabia. E lá se foi misturado com o lixo de quem tem tudo ou quase tudo, os únicos bens de quem nada tem. Naquele saco velho e sujo estavam todas as suas peças de vestuário, o único mimo que conseguira para o irmão mais novo e o seu lazer. Quando percebeu o acontecido, já era tarde demais, correu atrás procurando o lixo onde estava todo o seu luxo, mas foi em vão, o carro já se fora, inútil insistir, só restava agora apelar para a solidariedade humana, bater de porta em porta e conseguir adquirir novamente outros bens para colocar dentro de outro saco velho, sujo e quem sabe invisível assim como ele e seu irmão, essa era a única garantia de que ninguém, nem mesmo o lixeiro daria atenção aquele saco velho e sujo encostado num canto qualquer.


Zezinha Sousa


Esta crônica foi baseada totalmente em fatos reais.



Comentários

Zé Carlos disse…
Que terrivel não é minha querida.

Infelizmente todos nós passamos por situações semelhantes, mas vc desenvolveu muito bem sua crônica.

Um beijo enorme do seu amigo de alma, ZC
Denise disse…
Ambas trouxemos a invisibilidade, de maneiras diferentes na forma, mas muito semelhantes no tema.
Que triste esta história, esse destino.
Mas se perder os únicos pertences foi a maneira de ganhar a atenção e a solidariedade, ao final deve ter ficado grato por este jeito que "Deus escreve certo por linhas tortas", né Zezinha?

Beijos, minha sensível amiga!
Zezinha Sousa disse…
Agradeço a visita e os comentáris aos amigos Zé Carlos e Denise.
Apesar da situação acima ser algo comum em nosso dia a dia, não devemos nunca nos acostumar e perder a sensibilidade diante de um ser humano em dificuldade.

Bjo grande, meus amigos queridos do coração!
Denise disse…
Nada a agradecer, querida, eu adoro estar por aqui!
Vim te convidar pra um cafezinho...rs...passa lá pra ver um desafio do qual fará parte, se aceitar.
Beijo carinhoso!
Denise disse…
Ai, Zezinha, a tonta aqui clicou rápido e perdeu teu comentário...buááááá

Sorry...quero ele de volta...rs
Bjo
Danii disse…
oii Zezinha Souza obrigada pela gratidão e tal.
Resolvi seguir seu blog pois encontrei-o por coincidência e achei seus textos maravilhosos.
Mas se quiser realmente ler meus textos entra em: certosentidos.blogspot.com
aquele ali tá horrivel, esse novo ta melhorzinho..
bjao e obrigada
Anônimo disse…
Muito bom o seu texto com sua história real. Já
enfrentei situações como essa algumas vezes. Dá
vontade de colocar os que podem e devem resolver isso, na adeia.
Abraço do
Théo Drummon

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