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O Sabor das Lágrimas

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Mais do que um fluido lagrimal com sua composição feita de água, sais minerais, gordura e proteína, sabemos que a lágrima é puro sentimento. Ao pensarmos nas ocasiões em que choramos, lembramos de situações totalmente diferentes e opostas. Nos meus devaneios de poeta, estive imaginando que de certa forma as lágrimas têm sabores. Tentando identificar alguns desses sabores surgiu esta reflexão: as lágrimas são amargas quando nos deparamos com a violência nua e crua, distante ou bem perto de nós. São azedas quando nascem da raiva que brota nos corações invejosos e arrogantes. São salgadas quando escorrem feito chuva no rosto pelas lições que a vida nos proporcionam através de experiências dolorosas, mas que nos fazem crescer como pessoas e lembrar que estamos vivos e que a vida é feita de fases. Agridoce são as lágrimas da saudade. E aquelas que vertemos quando rimos até a barriga doer? Acho que tem sabor de tutti-frutti. O sabor apimentado eu comparo com a dor física e haja pimenta quan…

A PASTA PRETA

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Dava para perceber que ele era o tipo de pessoa que sempre deixava tudo para a última hora, por isso andava às pressas como se pudesse ser mais veloz que o tempo. Quanto mais corria parecia não chegar a lugar nenhum. Eu sempre percebia a presença apressada daquele senhor diariamente no mesmo horário atravessando a avenida praticamente correndo enquanto tranquilamente eu tomava uma xícara de café debruçado na janela do meu pequeno apartamento pela manhã antes de sair para o trabalho. Dali, do segundo andar observava o caos urbano bem de perto como se fosse numa grande tela de TV. Buscava inspiração para minha coluna semanal no site Atualidades. Mas naquele dia de outono, clima ameno, 28 do mês de abril, o homem carregava além do estresse gritante, uma pasta preta nas mãos nervosas. Olhava o semáforo para pedestres e o sinal vermelho o fazia sussurrar como se falasse para si mesmo alguns palavrões, num exercício de impaciência angustiante. Pensei com meus botões: o que será que tem naquel…

Espelho, espelho meu...

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Sentada em frente ao espelho ela observa sua própria imagem. Ela costuma fazer isso desde que ficou sozinha. Em cada momento, no rosto de sempre, consegue ver coisas diferentes além de uma linha de expressão que ela herdou do pai e um fio de cabelo branco que teima em se destacar em meio aos fios negros, vê um olhar sombrio, um rosto cansado ou um sorriso satisfeito daqueles que espalham brilho nos olhos, um viço na pele apesar de não ser mais jovem, um ar de vitória de quem conseguiu mais do que esperavam dela. O que ela vê, depende do dia, pois como toda mulher, ela é como a Lua, tem suas fases.  Hoje especialmente ela se vê com mais cuidado, sem pressa. Enquanto suas mãos passeiam em seu corpo com seu creme preferido, se olha. Sua vida passa no espelho como um filme na tela de cinema, as imagens do passado se misturam com a sua, a mulher se vê tecendo sua vida fio a fio. Quantos erros, quantos acertos; quantas lágrimas, quantas risadas. Lágrimas que jorraram escondidas, risos fabri…

É tiro!

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Um tiro ecoou no escuro! Acordei assustado deixando no esquecimento a morena com quem dançava numa festa qualquer (afinal, sonho é sonho, o que importa é a morena e não os detalhes da festa). Ouvi sim um barulho forte, e certamente foi um tiro, como aqueles do tiroteio no assalto ao banco que vi ontem na TV antes de dormir. No auge dos meus 16 anos, nunca me vi tão indeciso: não sabia se me escondia debaixo da cama ou dentro do armário. Que vergonha era minha cara e minha tremedeira nas pernas! Ainda bem que eu estava sozinho. Que nada, eu não queria estar sozinho! Meu pensamento gritou o mais alto possível: Eu quero minha mãe! Foi então que percebi que não deveria ter me recusado a visitar a tia Zilda junto com meus pais em Coité do Nóia lá em Alagoas. Como será que se chama quem nasce em Coité do Nóia? Só pode ser coiteense ou noiado. Pronto, o mundo acabou de ser destruído com um tiro e eu debaixo da cama procurando um adjetivo pátrio para nativos que estavam fora da zona de perigo. …

Olhar Poético

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Vinícius olhou a porta
e viu nela poesia.
Porta que abre e fecha, como todas as portas.
Para cada pessoa de um jeito diferente:
O namorado, a cozinheira, o capitão...
Cada um com seu jeitinho ou seu jeitão.

Também olhou uma casa
Imaginária? De botão? Quem sabe...
(depende da sua imaginação)
E viu nela poesia, por tudo o que ela não tinha:
teto, parede, chão...

Por que então não olhamos
com esse olhar de poeta
as pessoas que nos cercam?
Veríamos nelas  poesia,
obra divina, mesmo com imperfeições.
Se assim fosse...
A maldade sumiria no ar
Explodindo para sempre, 
como bolhas de sabão.


Zezinha Lins

Prisma

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Nasci sem cor, um prisma transparente. base insegura, altura indefinida, vértices desencontradas, arestas afiadas, faces rosadas. A vida  Conspirava a meu favor. Enfim, um pouco de luz permeou os sonhos meus, explodiram as cores, ora quentes, ora frias. Nasci sem cor Hoje, polícroma sou.
Zezinha Lins

Gisele

Gisele morena
Menina mulher
Tão jovem
Tão forte
Tão gente
Um tantinho assim de quietude
Um tantão assim de amor
Gisele morena
Em ti explode
Dores e coragem para encará-las
Alegrias e disposição para desfrutá-las
Gisele menina
Semente que brotou
Gisele mulher
Aroma de flor. .Zezinha Lins.
Homenagem à minha nora e amiga Gisele Lopes