sábado, 22 de junho de 2019

Felipe


Estes teus olhinhos negros
São duas estrelas iluminando os meus;
Este teu sorriso encanto
Emana os sentimentos que certamente
Permeiam o céu.
Tua presença em minha vida
São voos e cantos de passarinhos,
Água pura escorrendo da fonte;
É vida renovando a alma,
É sempre um amanhecer.
Meu pequeno,
Meu menino,
Meu anjo,
Meu amor.

Zezinha Lins

terça-feira, 11 de junho de 2019

A procura de mim




Procuro a mim mesma
E tudo o que a mim pertence,
Pois percebo que até hoje
Não fazia distinção
Entre o que era meu ou dos outros.
E nesse viver de muitos
Absorvi tanta lama,
Água suja, aberração.
Nada disso me pertence
Quero apenas ser minha versão.
Procuro a mim mesma
E tudo que em mim se esconde
Sem interferências ou influências,
Sem heranças nem lembranças.
Preciso percorrer
O labirinto do meu ser,
É lá que vou encontrar
Na intimidade da minha alma
Meu pensar, minha palavra.
Meu genuíno viver.

Zezinha Lins
Poema publicado no livro E POR FALAR EM MULHER... (2019)




Em conta-gotas


Se assim como o Sol
surgir amor no teu horizonte
não hesites, não duvides,
dás asas ao teu coração
e quanto mais alto fores
de menos carecerás.
Se o amor chegar mais perto
e te segurar pela mão,
sublime te sentirás
não mais colherás ilusões.
Se o amor assim como a fonte
tua sede saciar,
bebes em conta-gotas
mais sabor sentirás.
É o milagre da vida,
a essência do existir,
a felicidade constante
neste mais que pede pouco
porque mesmo sendo menos
o amor nos faz gigantes.

Zezinha Lins

Poema publicado na Antologia de Poesias, Contos e Crônicas
da Casa da Poesia, volume 10 (2019)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Versos diversos


Por anos descalça percorri
caminhos de versos diversos.
Plantei flores, reguei e colhi,
a casa enfeitei com vasos
de lavanda e jasmins.
Em prosa um cafe ofereci,
em versos, um chá de alecrim.
Risos nas tardes de domingo,
silêncio na hora de dormir.
Os aromas, os sabores diferentes,
os encontros de amor e de amigos.
É o amor que se doa e se faz presente,
através das páginas,
através das gentes,
na canção que canto à toa,
nos versos que recito docemente.

Zezinha Lins
Poema publicado na Antologia de poesias, contos e crônicas
da Casa da Poesia Volume 10. (2019)


Olhar de inverno





Meu olhar perdido
Num espelho qualquer
Lembra-me do ontem
Da cor quente do arrebol
Quando nele abrigava
A fulgente luz do Sol.

Meu corpo teima em falar de vida
Minha voz emite amor
Coração chove, sereno.
Quieta, espero, hiberno
Enquanto observo em silêncio
O meu olhar de inverno.

Ai de mim, sem meus invernos
Quando busco dentro de mim, abrigo
Quando rego com lágrimas, meu solo
E de verde, visto-me inteira.
Aprendendo a viver meus invernos
Fortaleço meu viver de incertezas.

Poema do livro E POR FALAR EM MULHER de
Zezinha Lins


sábado, 8 de junho de 2019

Estranho de mim







Enquanto eu não encontrar
O estreito caminho
Que me conduz
Ao mais íntimo do meu ser;

Enquanto eu não for capaz
De dialogar comigo mesmo
Encarando os meus fantasmas
Dando nome a cada um;

Enquanto eu não me reconhecer
Um ser em construção
Banhado de imperfeições
E não encontrar em mim
O desejo visceral
De ser melhor a cada dia,

Serei um estranho de mim mesmo.


Poema do livro E por falar em mulher..
de Zezinha Lins




quarta-feira, 5 de junho de 2019

E por falar em mulher...



Através desta obra, quatro portas do universo feminino se abrem para espaços onde as cruezas e as belezas da realidade são tratadas de forma poética.  

Primeira porta:  Intimidade.
Ao adentrar este espaço, nos deparamos com a mulher mergulhada no mais íntimo do seu ser, num processo de autoconhecimento ela caminha pelos labirintos do seu eu e se encontra. Após esse encontro, ela está pronta para seguir em frente.

Segunda porta: Amorosidade
Neste espaço, encontramos a mulher conhecedora de si mesma, capaz de amar-se e amar ao outro. A mulher amorosa que se reconhece merecedora do verdadeiro amor e respeito. A mulher que também aprendeu a dizer NÃO e valorizar o seu SIM.

Terceira porta: Sororidade
Espaço da solidariedade. A mulher deixa de lado a rivalidade e enxerga a outra mulher como irmã, como amiga e não se nega a ajudá-la se for necessário, a colaborar com a sua voz e atitude para que cada vez mais todas as mulheres sejam respeitadas e protegidas.

Quarta porta: Empoderamento
A mulher dona do seu destino, exerce sua liberdade de escolhas. Ela não quer ser mais nem menos que os homens, mas parceiros na construção de uma sociedade justa e pacífica.




sábado, 9 de junho de 2018

Livro Partes do meu todo



Um pouco mais sobre sobre o livro
Partes do meu todo é um livro diferente de tudo o que você já leu. Já no texto de orelha a obra convida o leitor para uma viagem com paradas obrigatórias para melhor apreciação das diferentes paisagens literárias, cada parada uma emoção diferente. 

Fábrica de felicidade


Sexta à tarde, preciso relaxar, descansar. Pego caneta e papel, na maioria das vezes funciona. Começo a rabiscar, contar histórias reais, de ficção ou tudo misturado. Acredito que mesmo na ficção existe um tanto de verdade, (uma verdade subjetiva como a alma do ser humano) seja a narrativa na primeira ou terceira pessoa. Foi assim que nasceu a fábrica de felicidade.






Fábrica de felicidade


Houve um tempo em que eu fabricava a minha felicidade. Para isso usava a matéria-prima que estivesse ao meu alcance e se não tivesse nada eu inventava, bastava fechar os olhos ou fixar o olhar num lugar qualquer e deixar o pensamento fluir. Visitava lugares bonitos, viajava nas notas de um piano imaginário, corria num campo cheio de flores coloridas e encontrava um amor, vivia esse amor, com ele passeava de mãos dadas nas tardes de domingo e tomava sorvete num banco de uma praça qualquer. Voltando a realidade ou quase, vestia-me de Pollyana e seguia em frente, fabricando felicidade para mim e tentando fabricar para os que estavam a minha volta, essa parte era a mais difícil e necessária.
Hoje, continuo fabricando minha felicidade. Porém, aprendi com o tempo que tenho mais matéria-prima do que pensava, pois posso reciclar a realidade, transformando-a. Não preciso mais apenas sonhar, preciso fazer acontecer. Também não me visto mais de Pollyana, gosto de estar sempre vestida de mim mesma, usando todas as cores, chorando todas as lágrimas e saboreando todos os sorrisos. Sigo lubrificando e cuidando com zelo das peças de cada máquina da minha fábrica. Sim, porque fabricar felicidade dá trabalho e às vezes dói.

Zezinha Lins

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Livro Partes do meu todo




Um pedacinho do prefácio do meu novo livro PARTES DO MEU TODO, escrito pela poeta e escritora, professora no Rio de Janeiro e crítica literária Maria Maria Jose Zanini Tauil. Minha eterna gratidão.
"Conduzir ideias é algo mágico! A autora mostra a leveza e o sentimento que emana de cada um de seus textos, fazendo de nós, leitores, seus cúmplices e fãs. A matéria rica brota fácil da poeta, que mesmo em prosa, domina o universo da palavra, numa criação sólida, bem acabada e prontinha para ser degustada e se perpetuar. Sua escrita é porto seguro, cenário de sonhos e verdades, onde a emoção merece palmas e respeito."

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Livro Partes do meu todo


Prefácio



Você costuma ler o prefácio dos livros que lê? Confesso que tenho muito interesse em ler prefácios. Ele abre as portas e nos apresenta o que está por vir. Para mim, ler um livro sem ler primeiro o prefácio é como entrar na casa alheia sem bater na porta, como dispensar as boas vindas, o abraço e a oferta de um drink (no meu caso, sem álcool) antes da refeição. Já tive o imenso prazer de prefaciar um livro, a Antologia 6 da Casa da Poesia. Agora, o volume 8, para nossa alegria, será prefaciado pela Isolda Bourdot, a compositora do Roberto Carlos. Quem não costuma ler prefácios, não deixe nunca mais passar nenhum. Verá como a leitura fica ainda mais prazerosa depois do afetuoso abraço da chegada.

No tear do Senhor

Ao enviar para São Paulo, para as mãos do leitor Padre Wetemberg Aires, o livro Tecelã do Tempo, não imaginei que seria surpreendida com um poema inspirado na história do livro misturada com as lembranças do leitor. Grata e feliz com este lindo presente.
No tear do Senhor
No tear do Senhor
O tempo passa revivendo as lembranças
De um baú repleto de histórias
Que marcam também com minhas Olívias
E meus Severinos,
Mundos de botijas, flores azuis e amor
O ser criança me atinge
Esconde-esconde na casa de vovó Joana,
Correr pela praça da Matriz,
Ouvir os causos de vovô na calçada,
No sítio, a Casa Grande.
Tomar água do pote,
Depois banho de açude pra matar o calor.
Beber o Cálice de Cristo.
Do sofrimento à alegria
Vivo o mistério da contemplação.
No silêncio me faço oração,
Na oração me faço comunicação,
Na alegria me faço missão.
Vou seguindo o caminho.
Vou captando a arte do outro artista.
Não busco só a obra.
Busco o fundador da obra: Deus.
Assim vou tecendo minha vida
No tear do Senhor.
Padre Wetemberg Aires

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Precaução



Vesti o engano de uma tarde de verão.
Com o frescor de uma manhã de primavera,
Realcei as ilusões.
Lentamente despertei,
Perdida num emaranhado de inverdades.
Me recolhi, noites frias de inverno.
Sem mais ilusões,
Vivo cada dia como se fosso o último.
Sem arroubos, sem festim
Com solidez e resguardo
Cultivo a resistência,
Flor espinhosa,
Preservada de outros enganos
De outras tardes de verão.

Zezinha Lins



segunda-feira, 5 de março de 2018

Uma nova mulher





Quando o fundo do poço foi meu chão,
Com a força da mulher persistente
Calejada pelas batalhas da vida
Olhei para o alto e vi a Luz,
Segui seu rastro e emergi.
Cobri minha nudez de sonhos
Com estampas florais e coloridas,
Vesti meu melhor sorriso,
Cortei meus excessos, cabelos e aflições.
Pintei meus lábios, vermelho bordô,
Subi no salto, vi mais longe.
Usei o melhor perfume
Para o meu próprio deleite.
Olhei a nova mulher no espelho.
Amável e receptiva, soltei minha voz:
Prazer em conhece-la.

Zezinha Lins




sexta-feira, 2 de março de 2018

Que tiro foi esse?



Quando o monstrinho nasceu, ele era apenas um anjinho. Inocente, meigo, totalmente dependente como todos os anjinhos. Ele tinha uma caixinha vazia, lá seus pais e familiares deveriam ao longo do tempo, depositar valiosos tesouros. Porém, as pessoas naquela casa que estava longe de ser um lar, estavam desguarnecidas de tesouros, e ninguém oferece o que não tem. Não contaram nada para o anjinho sobre: cidadania, respeito, solidariedade, amizade, carinho, amor, poesia...
O anjinho foi crescendo com sua caixinha vazia. Sentia que lhe faltava algo, algo que ele não conhecia. Em casa, via TV até tarde, não havia rotina, nem deveres a cumprir. Quando começou a sair sozinho, conheceu muita gente e começaram a encher sua caixinha. Não sabendo distinguir entre tesouro e lixo, recebia tudo que pudesse preencher seu vazio.
Metamorfose. O anjinho aos poucos virou monstrinho. E assim foi rotulado na escola e por onde passava. Na sua caixinha havia tanto lixo que derramava por onde ele andava. Contaminava e era contaminado pelo lixo de outros monstrinhos.
O tempo passou, o monstrinho cresceu e se transformou num monstro gigante, sua caixa também cresceu, agora não precisava de ajuda para continuar a enchê-la de lixo, ele já sabia como fazer isso sozinho, aprendera a lição.
Certo dia, no beco escuro onde morava sozinho, um barulho ecoou bem perto. E os vizinhos olhando um para o outro, sem espanto nem estranhamento se perguntaram: - Que tiro foi esse?


Zezinha Lins                             

quinta-feira, 1 de março de 2018

Outono


Em plena transição
Contemplo meu ser,
Perfeita sintonia,
Outono em mim.
Nua, despojada dos excessos,
Roupas espalhadas como folhas secas pelo chão,
Resisto.
Vejo-me árvore de raízes fortes.
Sinto a ousadia do vento
Que canta no silêncio da noite,
Primorosa sinfonia
Adentra a janela entreaberta,
Acaricia meu corpo,
Afago in natura.
Hora de troca de roupagem, de cor, de sonhos.

Meu amor se foi com o Sol,
Dispenso a melancolia
Tão própria da nova estação,
Prefiro a beleza escondida no misterioso amanhã.
Há surpresas por vir,
Há leveza na nudez que espera
Um arrepio na pele
Quando a longa e fria noite chegar.
Enquanto isso, buscarei a mim mesma,
Marcarei encontro com o Sol.
Mas sei...
Um novo outono virá
Com toda a magia da última colheita.
Serena, em recolhimento
Escreverei entre os lençóis
Mais um poema de amor.




Zezinha Lins

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Opinião, quem não tem?



Se há uma coisa que todo ser humano tem, é opinião. Não importa se o indivíduo tem curso superior, doutorado ou sequer consiga decifrar os códigos linguísticos. Pode não ter bom senso, conhecimento aprofundado sobre o assunto em questão, mas a tal da opinião, tem que ter, mas até aí, tudo bem. É muito importante ter um posicionamento diante das diversas e adversas situações que preenchem nossa TV, nosso dia a dia e esvaziam nossos bolsos. Até porque, se não tivermos cuidado, esvaziam também nossas mentes. A lógica da questão é a seguinte: se somos a soma das nossas vivências, culturas, espaços geográficos que ocupamos, educação a qual tivemos acesso, influência familiares e tudo o mais, porque não é considerado normal termos opiniões diferentes? É claro que os nossos valores morais não devem interferir de forma negativa na vida dos outros. Acredito no poder de persuasão. Demonstrar-se contrário a opinião alheia com respeito e argumentos claros, é tão normal quanto inteligente; reagir com ódio e rejeição ofensiva a essas situações é anormal e tolo. O conhecimento agrega valor à palavra. Portanto, faz-se necessário ouvir mais tanto as opiniões equivalentes quanto as contrárias e com a mente aberta repensar, reformular ou firmar nossa tão querida opinião.


Zezinha Lins

Elas e suas estações



A fotografia no porta-retrato não denunciava tão claramente sua inconstância, nem sua alma amorosa. Aquela foto foi o registro de um único momento, ela lembrava bem, era outono dentro dela, para um observador perspicaz aquele olhar triste contrastava com o sorriso farto,
Ela tinha as quatro estações dentro dela. Com trinta e nove anos, às vezes sentia-se uma menina, outras, bem mais madura. Mulher de fases, cheia de encantos e desencantos. Às vezes o Sol brilhava dentro dela com tanta intensidade que a iluminava por fora também, sentia-se bonita e atraente, aquecia a todos que dela se aproximava. Outras vezes, sem que planejasse sentia o outono se aproximar e se acomodar no seu ser, assim como no dia do retrato. Nesses dias, se recolhia mais, tempo de muita reflexão, de assumir seus traumas e limitações. Melancólica, deixava suas angústias se diluírem em lágrimas. Sentia-se solitária e despida da vitalidade de outrora. Sabia que apesar de tudo aguentaria firme, era mais uma estação, ia passar.
Quando o inverno dava o ar da sua graça ela se alegrava, amava ver e ouvir a chuva, mas às vezes o frio a deixava tensa, músculos rígidos, incomodava. Mas ela não desistia nunca de amar a vida e de remar contra a maré sempre que fosse necessário. Por isso, logo começava com esforço e dedicação, a preparar sua primavera. Estação de flores perfumadas e coloridas, rosas que enfeitariam sua casa num lindo vaso transparente, ao colhê-las certamente se espetaria em seus espinhos, tudo bem, apenas teria mais cuidado para continuar colhendo suas rosas sem se machucar.


Zezinha Lins

Chove lá fora


Naquela manhã de sexta-feira, acordei de um sono mais demorado do que de costume, olhei o relógio ao lado da cama, 8h. Ouvi o barulho da chuva tão esperada, muita água do céu caia como bênção, chuva de verão.
Estamos no Nordeste, na Zona da Mata, bem próximo do Agreste. Não temos seca de grande intensidade como no Sertão nem enchentes aqui no município de Glória do Goitá, mas o calor é intenso, o verão é longo, sendo assim, essa chuva é muito bem-vinda.
Levanto feliz, abro a janela do meu quarto e sinto o frescor da chuva invadir os espaços e acariciar meu corpo. Cheiro bom, cheiro de chuva pedindo um café bem quente. Em pleno verão uma chuva torna meu dia mais feliz.
 Algumas lembranças vão chegando devagar e trazem junto uma sensação de vitória: lembro de tempos passados quando meus filhos eram pequeninos, tempos de muitas dificuldades. Morávamos numa casa que mais parecia uma peneira, chovia lá fora e dentro de casa. Era sempre um grande desassossego pois, havia apenas um pequeno espaço sem goteiras onde eu me abrigava com as crianças enquanto esperava a chuva passar para secar o chão. Enquanto isso brincávamos. Todo o processo se repetia quando voltava a chover. Na época esse jeito de viver me fazia exercitar a paciência, mas nunca desanimar, sabia que um dia transformaria aquela realidade. Não seria sem esforço. Estudar e estudar, foi nessa estrada que caminhei durante alguns anos. Hoje, aquele jeito de viver me faz sorrir, é o motivo da minha felicidade quando chove. Aprendemos a valorizar nossas conquistas quando olhamos para o passado com um olhar generoso, sem nenhum constrangimento.
Olho em volta, observo minha casa confortável conquistada com o meu trabalho, e um sorriso ilumina minha face, observo da janela a chuva e como sempre, vem uma frase no meu pensamento: Chove apenas lá fora.

Zezinha Lins

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

As lágrimas de Maria



Ela é a Maria que não vai com as outras, não tem idade, tem maturidade em construção. Como muitas Marias, constrói sua estrada removendo pedra por pedra, até sangrarem as mãos, mesmo assim segue plantando flores ao longo do caminho. Sua paciência é desmedida, suas dores escondidas. Não ouve os conselhos que lhe dão sobre a vida. Vive à sua revelia, acertando ou errando. Maria aprendeu desde cedo a ser contida e discreta. Sofre em silêncio seus medos, seus “nãos” à vida, suas ausências do belo. Sempre séria e aparentemente tranquila, Maria ferve por dentro. Angústias que sobraram do seu passado, da sua vivência como filha, como esposa e como mãe. Até que um dia, não suportando o peso da tristeza que a sufocava, Maria chorou, naquele momento ela não era ninguém, era apenas lágrimas. Chorou pelas suas limitações, pelas correntes imaginárias que a prendiam no chão como se fosse um tronco de árvore no deserto, chorou pelas mentiras de amor nas quais acreditou um dia e pelas lições que tardiamente aprendeu, chorou por tudo que tinha calado quando deveria ter gritado. Chorou até não poder mais. Maria agora não quer mais ser forte o tempo todo, ela sente que precisa se desmontar de vez em quando para se reerguer, se desconstruir para se reconstruir, se esvaziar para novamente se preencher. Maria agora sente-se mais leve, pois não é mais dura e seca, é líquida e transparente.


Zezinha Lins

Abraço de poesia




Fim de uma tarde morna, a noite anunciava sua chegada. A beleza do casarão antigo com suas enormes janelas azuis, nos convidava a ocupar o espaço cercado por jardins logo após o portão principal. As plantas com suas folhagens e flores se curvavam sem o menor sinal de vento, como se gentilmente quisessem nos dar as boas-vindas. Espalhados numa mesa forrada com uma toalha florida: livros, vários livros, produtos da casa. Um quadro grande com uma paisagem colorida representando a cultura local, decorava o ambiente. Tiras coloridas penduradas no frontal da casa, lembravam as festividades tradicionais tão bem vivenciadas pela nossa comunidade.
 Ouviu-se os primeiros acordes do violão, um chamado, um aviso: o sarau vai começar. Aos poucos, chegavam pessoas: poetas, escritores, músicos, cantores e muita gente bonita que conhecia o sabor e sentia de longe o cheiro de poesia. Um encontro de levezas, de versos, de sons e de alegria.
Entre versos brincantes no ar, surge nas mãos de um poeta, um instrumento medieval, pura magia. E o cordel saiu em forma de música entrelaçadas nas quatro cordas de uma rabeca, depois outra, duas rabecas com som de baile nordestino encantaram a todos.
E mais encantamento foi tomando conta dos que ali se faziam presentes através da bela voz do cantor que trouxe a nossa raiz, as nossas canções com cheiro e gosto de interior.
 Vieram os poemas, cada verso recitado, um carinho na alma. E a poesia foi se espalhando e abraçando o coração de cada um. A lua que tudo via, apaixonada pelos belos poemas declamados, despejava sua luz de prata sobre os muitos versos propagados que docemente bailavam no ar.

Zezinha Lins

domingo, 12 de novembro de 2017

Poema sem registro


Numa folha de papel em branco
Fiz de ti, poesia
Versos concebidos em silêncio
 Total ausência de grafia
Segredos que não ouso revelar, nem dar vida
Pois de antemão já sabia
Que no papel não caberia.
Sem registro, sem mágoa
O coração verseja.
Olhar fixo no vazio
Retiro o véu.
Imaginação solta,
Poema pronto
Escondido na branca memória
De uma folha de papel.

Zezinha Lins



Página Inicial



“Tantas possibilidades moram nesta folha em branco”, pensa ela enquanto observa a página inicial do word no seu amigo mais íntimo, o notebook. Amante das letras e das boas histórias, adora escrever, mas nem sempre é fácil pensar em algo interessante, principalmente quando sente-se cansada dos afazeres do dia a dia. Mesmo assim, resolve arriscar, dar a vez ao narrador. Aquela folha em branco na sua frente parece exercer um certo fascínio. No silêncio da noite os pensamentos criam asas e voam até os inúmeros personagens e enredos que cabem naquele espaço em branco: quantas histórias de amor, de romances vividos ou imaginados nos enredos e nos espaços mais inusitados, o tempo cronológico ou psicológico caminha junto aos personagens na trama. No início, o equilíbrio, ausência de conflito, e assim como na vida logo surgem as atribulações, depois o clímax e finalmente o desenlace. A arte de criar, de compor narrativas com todos os seus elementos lhe dá prazer, mas ela sabe que a história mais importante está sendo escrita sem que essas regras sejam tão prováveis e sem previsão para terminar: a sua própria história, sim, somos escritores de nós mesmos.
Zezinha Lins


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

EU S/A


Um dia pensei
Em decretar falência.
Cada passo para frente
Dois para trás.

Parei,
Observei,
Analisei,
Refiz estatísticas,
Calculei.

Desconstruí,
Sonhei,
Planejei,
Executei,
Investi,
Aprendi,
Amadureci,
Reconstruí.

Reconhecendo-me
Proprietário de mim,
Evoluí.

Zezinha Lins







Família Mismo da Silva




A família Mismo da Silva era a mais diferente que conheci. O casal tinha dois filhos, Pecy e Oty. Era um tal de fazer e acontecer, um contrariando o outro toda hora e isso deixava os pais maluquinhos. Pecy Mismo da Silva era um sujeitinho de 20 anos, mas se comportava como um velho rabugento. Reclamava se chovia, se fazia sol, se estava frio ou quente. Sempre escolhia o caminho mais deserto e íngreme para chegar em casa, alegando ser o mais curto, vez ou outra era assaltado, por isso subia e descia as ladeiras correndo, chegando em casa sempre cansado, suado e de mau humor. Estava sempre de cara amarrada, pois achava que ninguém gostava dele, sendo assim, não lhe escapava dos lábios nem um sorriso, e logicamente, não recebia nenhum. E assim, Pecy ia vivendo, carregando cada dia nas costas como se fosse um fardo. Para ele o céu era cinzento e as árvores ao redor da sua casa eram imprestáveis, pois soltavam folhas secas e o vento, só para irritá-lo se encarregava de espalhas todas. Concluíra o Ensino Médio a muito custo por exigência dos pais, não queria saber da roça, andava em busca de emprego, sem sucesso.
Oty Mismo da Silva, era totalmente diferente, com 16 anos de idade estava concluindo o Ensino Médio e já se preparava para enfrentar a jornada que o levaria a faculdade de Agronomia. Sempre de bom humor, acendia todas as luzes de qualquer ambiente somente com sua presença. Adorava contar piadas, e o seu sorriso era seu cartão de visitas, em troca, recebia milhões de sorrisos de volta. Nos dias de sol aproveitava para tomar banho na cachoeira mais próxima do sítio onde viviam e nos dias de chuva, na varanda deitado na rede, observava a natureza se renovando a cada gota que caía. O diálogo com o irmão era complicado, pois na maioria das vezes surgiam conflitos, o que o deixava triste, mas nesses momentos lembrava dos conselhos de sua avó, especialmente um deles “ Meu, filho, não queira ter razão sempre, nem provar aos outros que está certo, apenas seja feliz. A alegria de viver é como uma semente, plante incansavelmente em todo tipo de terreno, a leveza ou a dureza da vida cuidará do resto. Umas irão florescer após uma chuva fina na Primavera, outras depois de uma terrível tempestade. Não desista nunca. Seja um bom semeador”

Zezinha Lins




Germinação



Por um momento
Olho-me no espelho da vida
E vejo estampada no meu corpo
Toda a fragilidade humana.
Aceito meus limites
Reconheço-me aprendiz no viver,
Aprendiz no sofrer,
Faz parte, estou viva.
Choro, sofro, luto
Estou viva!
Busco o fio da meada
Onde foi que de mim, me perdi?
Não importa, nem preciso da resposta
Preciso apenas entender o óbvio:
Para me reconstruir
Fez-se necessário me desconstruir
Agora, não mais flor
Mas semente em solo fértil,
Broto.

Zezinha Lins




sábado, 21 de outubro de 2017

Um certo tipo de amor


Num domingo à tarde, depois de ver um filme de romance do qual não sei o título porque comecei a ver quase no final, atrevo-me a escrever sobre o amor. Nada fácil para mim, pois meu ponteiro nunca apontou para a pessoa certa. Porém, o amor está tão impregnado em nós e é tão subjetivo que melhor do que escrever sobre experiências é deixar-se levar pela intuição, pela emoção e deixar as palavras fluírem cheias de sabor como bombons recheados de surpresas. E como quem saboreia um brigadeiro, sigo preenchendo essas linhas com a sabedoria de quem reconhece que nada sabe sobre o assunto. Porém, na minha ignorância sobre esse sentimento tão falado, aliás mais falado do que vivido, vou tecendo minhas ideias.

Acredito que amor e sofrimento andam juntinhos, de mãos dadas. Se não somos correspondidos, ai que dor! Que tristeza! Se somos e vivemos o amor plenamente, ai que dor! Que medo de perder a pessoa amada! Aí, vem o ciúme, e a dor aumenta. Mas acredito que pior do que essas dores de amor, é nunca ter sentido esse complexo sentimento que faz os olhos e a alma sorrirem em alguns momentos e chorarem em outros. Mas tem um tipo de amor que nos completa e nos faz grande, nos faz pessoas melhores na doação do afeto ao outro. É o amor-próprio, ele que nos oferta qualidades fundamentais para saber amar o outro: dignidade, autoestima do jeito certo, sem narcisismo. Sem esse bendito amor, ai que dor! 

Zezinha Lins

domingo, 15 de outubro de 2017

A risada de Mariana


Contaram-me que ela era especial. No primeiro contato na sala de aula percebi que realmente ela era muito especial. Menina de pouco mais de 30 anos, linda, inteligente e muito simpática. Eu lecionava um 5º ano, era uma turma que agregava todas as diferenças e isso tornava minha sala de aula um espaço maravilhoso onde eu ensinava e aprendia a cada instante.
Mariana sempre tinha muitas novidades para contar, durante o recreio ficava perto de mim falando sobre sua vida: pessoas, familiares, fatos, impressões. Sua aprendizagem era desenvolvida principalmente através da oralidade.  Adorava dar uma bela lição de moral nos colegas quando achava que mereciam, todos paravam para ouvi-la, era querida por meninos e meninas.
Às vezes o cansaço me vencia, as horas demoravam a passar, o corpo e a mente suplicavam por um descanso. Mas quando Mariana soltava sua gargalhada por alguma bobagem que algum coleguinha falava ou fazia, aquela risada enchia-me de vida, de alegria e eu sorria, sentia-me mais leve. O ano letivo terminou, Mariana assim como os coleguinhas seguiram o caminho do aprender e ensinar, não a vejo mais diariamente como antes, mas a risada de Mariana ecoa nas minhas lembranças e me faz sorrir, sempre.


Zezinha Lins

Diferenças



Que venham os passarinhos
De todos os tamanhos e cores
Com seus diferentes cantos
Ou mesmo sem canto nenhum
Que preencham meus espaços
Floridos e coloridos às vezes
Ou cheio de folhas secas
Espalhadas pelo chão
Que me ensinem a contemplar
A receber e me doar
Que me ensinem um canto novo
Silencioso e afetivo.
Que me ensinem a grandiosidade
Até então escondida
Que está além das palavras ditas
Em alto e bom som
Na boca, nas mãos e no olhar.

Zezinha Lins




Escolhas




Nego-me a ouvir o gemido do vento,
Ouço apenas o seu cantar.
Nego-me a ouvir o choro da chuva,
Ouço a sua melodia
Escorrer pelas ruas, campos e flores,
Vejo a semente germinar.
Nego-me a ver o Sol se esconder,
Vejo apenas seu adormecer...
Em paz...
Com a certeza de que voltará a brilhar.
Nego-me a perceber o escuro da noite,
Vejo o prateado da Lua
Espalhando versos no céu
Enfeitados com estrelas brincantes
Inspirando os poetas para mais um poema
E os namorados para mais um beijo.


 Zezinha Lins