domingo, 12 de novembro de 2017

Poema sem registro


Numa folha de papel em branco
Fiz de ti, poesia
Versos concebidos em silêncio
 Total ausência de grafia
Segredos que não ouso revelar, nem dar vida
Pois de antemão já sabia
Que no papel não caberia.
Sem registro, sem mágoa
O coração verseja.
Olhar fixo no vazio
Retiro o véu.
Imaginação solta,
Poema pronto
Escondido na branca memória
De uma folha de papel.

Zezinha Lins



Página Inicial



“Tantas possibilidades moram nesta folha em branco”, pensa ela enquanto observa a página inicial do word no seu amigo mais íntimo, o notebook. Amante das letras e das boas histórias, adora escrever, mas nem sempre é fácil pensar em algo interessante, principalmente quando sente-se cansada dos afazeres do dia a dia. Mesmo assim, resolve arriscar, dar a vez ao narrador. Aquela folha em branco na sua frente parece exercer um certo fascínio. No silêncio da noite os pensamentos criam asas e voam até os inúmeros personagens e enredos que cabem naquele espaço em branco: quantas histórias de amor, de romances vividos ou imaginados nos enredos e nos espaços mais inusitados, o tempo cronológico ou psicológico caminha junto aos personagens na trama. No início, o equilíbrio, ausência de conflito, e assim como na vida logo surgem as atribulações, depois o clímax e finalmente o desenlace. A arte de criar, de compor narrativas com todos os seus elementos lhe dá prazer, mas ela sabe que a história mais importante está sendo escrita sem que essas regras sejam tão prováveis e sem previsão para terminar: a sua própria história, sim, somos escritores de nós mesmos.
Zezinha Lins


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

EU S/A


Um dia pensei
Em decretar falência.
Cada passo para frente
Dois para trás.

Parei,
Observei,
Analisei,
Refiz estatísticas,
Calculei.

Desconstruí,
Sonhei,
Planejei,
Executei,
Investi,
Aprendi,
Amadureci,
Reconstruí.

Reconhecendo-me
Proprietário de mim,
Evoluí.

Zezinha Lins







Família Mismo da Silva




A família Mismo da Silva era a mais diferente que conheci. O casal tinha dois filhos, Pecy e Oty. Era um tal de fazer e acontecer, um contrariando o outro toda hora e isso deixava os pais maluquinhos. Pecy Mismo da Silva era um sujeitinho de 20 anos, mas se comportava como um velho rabugento. Reclamava se chovia, se fazia sol, se estava frio ou quente. Sempre escolhia o caminho mais deserto e íngreme para chegar em casa, alegando ser o mais curto, vez ou outra era assaltado, por isso subia e descia as ladeiras correndo, chegando em casa sempre cansado, suado e de mau humor. Estava sempre de cara amarrada, pois achava que ninguém gostava dele, sendo assim, não lhe escapava dos lábios nem um sorriso, e logicamente, não recebia nenhum. E assim, Pecy ia vivendo, carregando cada dia nas costas como se fosse um fardo. Para ele o céu era cinzento e as árvores ao redor da sua casa eram imprestáveis, pois soltavam folhas secas e o vento, só para irritá-lo se encarregava de espalhas todas. Concluíra o Ensino Médio a muito custo por exigência dos pais, não queria saber da roça, andava em busca de emprego, sem sucesso.
Oty Mismo da Silva, era totalmente diferente, com 16 anos de idade estava concluindo o Ensino Médio e já se preparava para enfrentar a jornada que o levaria a faculdade de Agronomia. Sempre de bom humor, acendia todas as luzes de qualquer ambiente somente com sua presença. Adorava contar piadas, e o seu sorriso era seu cartão de visitas, em troca, recebia milhões de sorrisos de volta. Nos dias de sol aproveitava para tomar banho na cachoeira mais próxima do sítio onde viviam e nos dias de chuva, na varanda deitado na rede, observava a natureza se renovando a cada gota que caía. O diálogo com o irmão era complicado, pois na maioria das vezes surgiam conflitos, o que o deixava triste, mas nesses momentos lembrava dos conselhos de sua avó, especialmente um deles “ Meu, filho, não queira ter razão sempre, nem provar aos outros que está certo, apenas seja feliz. A alegria de viver é como uma semente, plante incansavelmente em todo tipo de terreno, a leveza ou a dureza da vida cuidará do resto. Umas irão florescer após uma chuva fina na Primavera, outras depois de uma terrível tempestade. Não desista nunca. Seja um bom semeador”

Zezinha Lins




Germinação



Por um momento
Olho-me no espelho da vida
E vejo estampada no meu corpo
Toda a fragilidade humana.
Aceito meus limites
Reconheço-me aprendiz no viver,
Aprendiz no sofrer,
Faz parte, estou viva.
Choro, sofro, luto
Estou viva!
Busco o fio da meada
Onde foi que de mim, me perdi?
Não importa, nem preciso da resposta
Preciso apenas entender o óbvio:
Para me reconstruir
Fez-se necessário me desconstruir
Agora, não mais flor
Mas semente em solo fértil,
Broto.

Zezinha Lins




sábado, 21 de outubro de 2017

Um certo tipo de amor


Num domingo à tarde, depois de ver um filme de romance do qual não sei o título porque comecei a ver quase no final, atrevo-me a escrever sobre o amor. Nada fácil para mim, pois meu ponteiro nunca apontou para a pessoa certa. Porém, o amor está tão impregnado em nós e é tão subjetivo que melhor do que escrever sobre experiências é deixar-se levar pela intuição, pela emoção e deixar as palavras fluírem cheias de sabor como bombons recheados de surpresas. E como quem saboreia um brigadeiro, sigo preenchendo essas linhas com a sabedoria de quem reconhece que nada sabe sobre o assunto. Porém, na minha ignorância sobre esse sentimento tão falado, aliás mais falado do que vivido, vou tecendo minhas ideias.

Acredito que amor e sofrimento andam juntinhos, de mãos dadas. Se não somos correspondidos, ai que dor! Que tristeza! Se somos e vivemos o amor plenamente, ai que dor! Que medo de perder a pessoa amada! Aí, vem o ciúme, e a dor aumenta. Mas acredito que pior do que essas dores de amor, é nunca ter sentido esse complexo sentimento que faz os olhos e a alma sorrirem em alguns momentos e chorarem em outros. Mas tem um tipo de amor que nos completa e nos faz grande, nos faz pessoas melhores na doação do afeto ao outro. É o amor-próprio, ele que nos oferta qualidades fundamentais para saber amar o outro: dignidade, autoestima do jeito certo, sem narcisismo. Sem esse bendito amor, ai que dor! 

Zezinha Lins

domingo, 15 de outubro de 2017

A risada de Mariana


Contaram-me que ela era especial. No primeiro contato na sala de aula percebi que realmente ela era muito especial. Menina de pouco mais de 30 anos, linda, inteligente e muito simpática. Eu lecionava um 5º ano, era uma turma que agregava todas as diferenças e isso tornava minha sala de aula um espaço maravilhoso onde eu ensinava e aprendia a cada instante.
Mariana sempre tinha muitas novidades para contar, durante o recreio ficava perto de mim falando sobre sua vida: pessoas, familiares, fatos, impressões. Sua aprendizagem era desenvolvida principalmente através da oralidade.  Adorava dar uma bela lição de moral nos colegas quando achava que mereciam, todos paravam para ouvi-la, era querida por meninos e meninas.
Às vezes o cansaço me vencia, as horas demoravam a passar, o corpo e a mente suplicavam por um descanso. Mas quando Mariana soltava sua gargalhada por alguma bobagem que algum coleguinha falava ou fazia, aquela risada enchia-me de vida, de alegria e eu sorria, sentia-me mais leve. O ano letivo terminou, Mariana assim como os coleguinhas seguiram o caminho do aprender e ensinar, não a vejo mais diariamente como antes, mas a risada de Mariana ecoa nas minhas lembranças e me faz sorrir, sempre.


Zezinha Lins

Poema sem registro

Numa folha de papel em branco Fiz de ti, poesia Versos concebidos em silêncio  Total ausência de grafia Segredos que não ouso ...