sábado, 9 de setembro de 2017

Sob a luz do abajur



Na penumbra do meu quarto, o abajur ao lado da cama tenta impor sua luz azul. Mas, tímida e discreta ela permanece frágil, pálida e misteriosa. O silêncio da madrugada é cortado pelo canto do grilo que certamente faz do seu palco, o jardim. A noite traz consigo uma magia diferente, festa para alguns, para outros, encontro consigo mesmo, hora de saber ser boa companhia para si próprio, apesar de conter nessa relação uma exigência maior, pois para os outros dá para disfarçar, para nós, não.

Pensamentos preenchem os espaços do quarto e da mente levemente iluminados pela luz do abajur, azul como as flores do vestido que eu usava quando nos vimos pela primeira vez, azul como a cor com que o céu se mostrava quando nos vimos pela última vez, pelo menos deveria ser a última vez, mas as lembranças sempre nos situam um de frente para o outro. Conversas triviais, sorrisos, desejos contidos e um até logo.

Em frente a cama, o espelho reproduz minha imagem, o mobiliário, o abajur e sua luz. Olho e a consciência tranquila me faz sentir uma paz que chega a tocar meu corpo como se fosse um carinho, um sorriso escapa dos meus lábios, parece contraditório, mas é a consciência da escolha, estar bem depende mais de nós do que dos outros. Cerro os olhos, me acomodo nos travesseiros e agradeço a Deus pelo que tenho, e pelo que não tenho procuro não lamentar. Não tenho você. Não era pra ser.

Zezinha Lins